1 ano atrás
sábado, 19 de maio de 2012
A - legia nº 25 - ou elegia de domingo às dezessete horas e cinquenta minutos
Buscaste perguntas em um mundo gabaritado.
Algum pedaço de folha em branco num papel preenchido.
Mas só há respostas prontas em um jogo dado -
tabuleiro que não se pergunta porque foi instituído.
Diante da escuridão de Deus, elevaste a voz
Mas não contentaste com o silêncio e o consumismo.
Diante da luz do corpo, aprofundaste o tato
mas não contentaste com o prazer que é esquecido.
Cataste entulhos de uma cultura destruída e
Poemas em primeira pessoa te irritam.
Cansaste em ler, nos poetas, manuais de como se queixar
ou se iludir na vida.
Não sabes mais o que é o orgulho.
Não sabes mais o que é o riso.
Queres sexo fácil, sem ser envolvido.
Pois envolver requer volta
E aprendeste a andar
– num ritmo grave,
Lento e coagido.
Queres dinheiro e fama,
mas rejeitas o mundo.
Diante dele te cala,
querendo gritar com tua ira.
Invisível muralha.
Pólvora não é a resposta.
Nem poesia.
Ingenuidade e mesmice
é como vês palavras de amor.
De caiofernandos e clarices,
carpinejam, num jardim de plástico, os esperançosos e tristes.
Mas tu nem és mais isso!
Não queres amor, nem dor, nem métrica.
És apenas um nada, um merda,
mancha insolúvel de óleo num copo d'água,
nada que nada
na superfície de um mundo que não foi feito para ti.
Mas não tens nem queres resposta.
Nem o que há em folhetos e livros.
Não és capaz de se autodestruir
Nem de tentar suicídio.
Já fizeram isso, quando ainda fazia sentido.
E não sentes mais,
apenas andas no ritmo -
num ritmo grave,
lento e
coagido.
(Mais que palavras em primeira pessoa -
a segunda pessoa te irrita.
Tom monótono e blasé,
que diz com imparcialidade teus vícios.)
sexta-feira, 4 de maio de 2012
do diálogo entre o cacique, sua tribo muda e três europeus
Tecnologia, disseram, tecnologia é a resposta. E prometeram transportes velozes, comunicações eficientes, sim, sim, vocês passarão o tempo na frente de uma tela cheia de cores, sons sairão de pequenas caixas e não será preciso mais buscar lenha nem colher frutas nas árvores. Banho frio? Bobagem. Vivemos em uma nova era, a era da Tecnologia.
Brilhando os olhos sonharam com o futuro magistral e sem ao menos esperá-los acabar de contar a profecia, proferiram inocentemente: e o que nós, nós homens sem tecnologia, precisamos para ter tecnologia?
Muito simples, muito fácil, muito prático – disseram. Deem suas terras, mas assim, não precisam dar tudo não – a gente vem e explora. Criem suas leis, mas não cobrem de nós impostos! Nós, homens com tecnologia, somos respeitadores e só tiramos o que precisamos pra fazer tecnologia. Podem dar também suas florestas – a gente precisa de terra, muita terra pra plantar gado, pra alimentar nossa gente, gente que faz tecnologia. Queimem seus livros, esqueçam sua língua e ignorem sua música. Não acredito: vocês escutam e leem sem tecnologia!? É preciso reverter isso. É preciso reverter isso. Assim não dá. Façamos o seguinte: nós ainda vamos distribuir nossos livros, construir escolas para vocês e, é claro, dar, sobretudo, tecnologia. Só queremos colocar nossas indústrias, nossos trabalhadores gabaritados que ensinarão questões para vocês responderem com educação e tecnologia. Sim, sim! E vocês serão como a gente, com muita tecnologia, com muita educação, com muita televisão e facebook. E vocês vestirão como a gente, com tênis Nike e blusa da Lacoste. E sobretudo, eu digo pra vocês, vocês terão tecnologia! Melhor, melhor que isso! Construiremos fábricas aqui, muitas fábricas, muitas máquinas – vocês, povo eleito, trabalharão aqui, ganharão dinheiro para comprar televisões, caixas de som e cerveja! E futebol com tecnologia!Vocês, povo eleito, construirão tecnologia! Tecnologia é a resposta. Tecnologia é resposta.
"Tecnologia é a resposta – mas qual era mesmo a pergunta?"
terça-feira, 1 de maio de 2012
petri-ficada-mente
Gravou na mente uma fé que havia num antigo coração inventado.
Mas a fé só é fé se se sente – cacofonicamente, entre cacos e fonemas a serem colados num mudo mundo despedaçado.
Se mente para si mesmo com atos que não pretendem ultrapassar a barreira invisível dessa esperança inventada – por que, então, inventar, se o que se cria é, sobretudo, para ser conquistado, para ser grudado?
Não há amor que resista sem alguma fé, nem que seja no próprio amor.
Semente infértil – fervorosamente ferve na terra do Sol: mas, árvores não nascem das lavas.
Os ombros desnudos que carregam um mundo imaginário se cansam antes mesmo de tentar carregar o fardo.
E se a pedra rolar sobre Sísifo, sobreviveria incólume a alma criada mesmo destruindo o corpo dado?
E se as cartas jogassem entre si um novo jogo, cuja regra não viria de fora, mas de dentro, de modo tão arbitrário?
A pedra se atira a si mesma – mesmo sabendo que não há pecado.
Enclausurado coração, seu choro escorre embaixo, no plástico, através do líquido que sossega a brasa de uma paixão da mente incapaz de não ser sóbria. Mas não há coração, não há alma, não há nada que não seja inventado.
Petrificadamente, três vezes nega-se o mundo. O amor, o homem e o tudo. Por que não se pode ter fé em não-ter-fé?
Inventou na mente uma fé que tinha – mas que havia destruído. Mas só inventou. Inverteu. In-versou.
quarta-feira, 21 de março de 2012
eu-nu(n)co.
Que não seja possível.
Que não seja provável.
Que não seja bonito.
Que não seja bom.
Porque tudo é vão. Tudo.
Até lutar contra o impossível.
Até lutar contra o improvável.
Até lutar contra a feiúra.
Até lutar contra a maldade.
Que é a vontade?
Que é a vida?
Afogar e afogar – e no fundo do mar,
Atlântida não há.
Que as mãos fiquem cegas.
Que os olhos não cheirem.
Que o nariz não toque.
Branco e pequeno – bolinha de naftalina.
Evapore, evapore.
No ralo do mictório,
no ralo do mictório.
Alvo.
Tão branco e pequeno.
Tiro certeiro de todos que passam.
De todos que mijam – alvo.
Não tens amigos e o buraco é pequeno demais pra te engolir.
Abismos? Nem mesmo és capaz de tocá-los.
Ralos? Que são os ralos?
Entre a urina, o branco e os buracos,
Bolinha de naftalina,
A condição de nunca conhecer o que há por detrás do furo,
O que há além do vaso,
A sina de ser alvo,
De sofrer sem saber,
De saber que não é possível
Que não é provável,
Que não é bonito,
Que não é bom,
Nem desejável,
Viver.
Mas o que é a vida senão o que antecede o evaporar-evaporar-evaporar–e-nunca-mais-voltar?
Que não seja provável.
Que não seja bonito.
Que não seja bom.
Porque tudo é vão. Tudo.
Até lutar contra o impossível.
Até lutar contra o improvável.
Até lutar contra a feiúra.
Até lutar contra a maldade.
Que é a vontade?
Que é a vida?
Afogar e afogar – e no fundo do mar,
Atlântida não há.
Que as mãos fiquem cegas.
Que os olhos não cheirem.
Que o nariz não toque.
Branco e pequeno – bolinha de naftalina.
Evapore, evapore.
No ralo do mictório,
no ralo do mictório.
Alvo.
Tão branco e pequeno.
Tiro certeiro de todos que passam.
De todos que mijam – alvo.
Não tens amigos e o buraco é pequeno demais pra te engolir.
Abismos? Nem mesmo és capaz de tocá-los.
Ralos? Que são os ralos?
Entre a urina, o branco e os buracos,
Bolinha de naftalina,
A condição de nunca conhecer o que há por detrás do furo,
O que há além do vaso,
A sina de ser alvo,
De sofrer sem saber,
De saber que não é possível
Que não é provável,
Que não é bonito,
Que não é bom,
Nem desejável,
Viver.
Mas o que é a vida senão o que antecede o evaporar-evaporar-evaporar–e-nunca-mais-voltar?
terça-feira, 20 de março de 2012
ILUSÕES II
Ele queria mamar. Chorou. A mãe deu-lhe leite.
Ele queria o brinquedo da TV. Chorou. A mãe deu-lhe o brinquedo.
Ele queria outro brinquedo, mais bonito, mais caro. Nem precisou chorar. A mãe deu-lhe o outro brinquedo.
Ele foi pra escola. Chorou. Mas encontrou lá outros que choravam. Parou de chorar: identificou-se – afinal, a família estava pagando pela educação com todos aqueles brinquedos, telas interativas e caminhadas ecológicas.
Ele se apaixonou. Chorou. Para conquistar, mostrou os novos brinquedos ganhos. Parou de chorar. Ganhou o outro brinquedo.
Teve que mudar de jogo. Fase adulta. Velho mundo novo. Mas nunca ele haveria de conseguir dominar as regras. A mãe sabia disso. Nem precisou chorar. Mas a mãe se antecipou ante ao seu suposto choro. A mãe pagou-lhe faculdade e intercâmbio. E umas aulas de inglês e francês.
Ele foi pra faculdade e pro intercâmbio. E para as aulas de inglês e francês. Não chorou porque já sabia que ia encontrar outros que já não mais choravam. Sentiu-se feliz por não estar triste. Mas tristeza? O que era? Nunca soube. Tristeza é o que não se compra. E tudo se compra. Tudo é festa. Festejou.
Matou um homem depois da festa. Acidente. Depois do trabalho o infeliz tinha que tomar uma pinga, sair de bicicleta e parar na frente do capô do carro novo que ele ganhara da mãe. Ele definitivamente não tinha sorte. Chorou. Tremeu ao ver um corpo morto. Ligou pra mãe. Problema resolvido. Era só decorar um script. Decorou.
Decolou.
Passou o tempo. Precisava de um emprego. A mãe sabia. Comprou pra ele uma empresa. Ele virou dono. Era só decorar um script.
Chegou a época de casar. Casou. Teve um filho.
O filho queria mamar.
Ele queria o brinquedo da TV. Chorou. A mãe deu-lhe o brinquedo.
Ele queria outro brinquedo, mais bonito, mais caro. Nem precisou chorar. A mãe deu-lhe o outro brinquedo.
Ele foi pra escola. Chorou. Mas encontrou lá outros que choravam. Parou de chorar: identificou-se – afinal, a família estava pagando pela educação com todos aqueles brinquedos, telas interativas e caminhadas ecológicas.
Ele se apaixonou. Chorou. Para conquistar, mostrou os novos brinquedos ganhos. Parou de chorar. Ganhou o outro brinquedo.
Teve que mudar de jogo. Fase adulta. Velho mundo novo. Mas nunca ele haveria de conseguir dominar as regras. A mãe sabia disso. Nem precisou chorar. Mas a mãe se antecipou ante ao seu suposto choro. A mãe pagou-lhe faculdade e intercâmbio. E umas aulas de inglês e francês.
Ele foi pra faculdade e pro intercâmbio. E para as aulas de inglês e francês. Não chorou porque já sabia que ia encontrar outros que já não mais choravam. Sentiu-se feliz por não estar triste. Mas tristeza? O que era? Nunca soube. Tristeza é o que não se compra. E tudo se compra. Tudo é festa. Festejou.
Matou um homem depois da festa. Acidente. Depois do trabalho o infeliz tinha que tomar uma pinga, sair de bicicleta e parar na frente do capô do carro novo que ele ganhara da mãe. Ele definitivamente não tinha sorte. Chorou. Tremeu ao ver um corpo morto. Ligou pra mãe. Problema resolvido. Era só decorar um script. Decorou.
Decolou.
Passou o tempo. Precisava de um emprego. A mãe sabia. Comprou pra ele uma empresa. Ele virou dono. Era só decorar um script.
Chegou a época de casar. Casou. Teve um filho.
O filho queria mamar.
sábado, 3 de março de 2012
É agora que a inteligência afasta o que o peito quer ter por perto;
é agora que a lógica dos erros abstratos confunde-se com a ilógica dos acertos concretos;
é agora que a mentira do passado certo sufoca a verdade do futuro incerto?
- é agora que
sem saber o que pode haver depois, agonizo com a dor do antes?
É agora que releio os scripts do tempo e, sem alento, retomo o roteiro que já cansei de escrever?
É agora que , na cama, não me levanto e adormeço, adormeço em meu sonho medido com réguas, regras e metas?
É agora que deixo o agora para o depois, esqueço o presente e me desfaço com a retomada de antigos erros?
É agora que
sem mais nada
nado novamente
para mais uma vez
tentar me afogar?
E se existe só um caminho nesta vida, o caminho da dor, então é agora que se tenta doer com estilo?
é agora que a lógica dos erros abstratos confunde-se com a ilógica dos acertos concretos;
é agora que a mentira do passado certo sufoca a verdade do futuro incerto?
- é agora que
sem saber o que pode haver depois, agonizo com a dor do antes?
É agora que releio os scripts do tempo e, sem alento, retomo o roteiro que já cansei de escrever?
É agora que , na cama, não me levanto e adormeço, adormeço em meu sonho medido com réguas, regras e metas?
É agora que deixo o agora para o depois, esqueço o presente e me desfaço com a retomada de antigos erros?
É agora que
sem mais nada
nado novamente
para mais uma vez
tentar me afogar?
E se existe só um caminho nesta vida, o caminho da dor, então é agora que se tenta doer com estilo?
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
ILUSÕES
ILUSÕES¹
(A sexta ilusão foi pensar: o texto é grande, quero é espreguiçar)
A primeira ilusão ele não precisou criar, foi-lhe dada pela natureza sagrada: pele branca, propriedade privada, pais carinhosos e uma ursinho de pelúcia chamado Teddy. Mas todos que ele conhecia nasciam assim, exceto o Thor, filho do Eike, que já feto tinha mais dinheiro que um país da África. A segunda ilusão seus pais lhe incutiram: a ausência se compra com brinquedos, com aulas particulares e cursos de línguas – “o mundo é injusto, meu filho” e, se Deus ou a família lhe deram a dádiva de nascer privilegiado, era preciso se armar para impedir de perder o que por sorte foi conquistado. Aprendeu aulas de boxe para se defender dos trombadinhas, nunca andou de ônibus para evitar a inveja e no início, bem no início, antes de ser hobbesianamente científico, frequentava a igreja, porque tinha que agradecer a Deus, fazer amigos e se livrar do mal-olhado. A terceira ilusão foi uma ilusão diferente: Luísa na festa do colégio, com seu sorriso lindo e seus olhos de veludo. Luísa também branca, bonita e pudica, porém mais inteligente. E ele que, com seus olhos verdes, olhou para a menina, contou piadas, inventou memes, tocou-lhe a pele, apaixonou-se por estar com gente como ele. Compreensivo, sonhava em voz alta com os dedos enrolados nos cabelos da moça: “a gente vai ter cinco carros, três casas e dois filhos fofos; moraremos em Veneza por um tempo e, quando for gerente da empresa do meu pai, nem precisarei trabalhar; viveremos de imóveis e de juros, então a gente vai, casa e viaja pelo mundo!”. Compreensivo, foi o primeiro a perceber pelos amigos que a traição é inevitável e, em um mundo injusto, foi durante o Carnaval que carne falou mais alto: se o amor e a queda eram destino, que ele fosse o primeiro a trair sem desatino e ser completamente dono de si mesmo. Por infelicidade, Luísa soube – era seu grande defeito, a inteligência – e não adiantou pedir clemência: foi-se o fim da terceira ilusão. A quarta ilusão, essa sim, ele precisou criar, depois de ser consolado pelo psicólogo da família: “não somos responsáveis pelos outros, a felicidade depende de cada um de nós; a vida é feita de oportunidades em que cada um deve correr atrás: somos capazes de chegar no topo; vencer não implica a derrota do outro”. E longe de ser contra os direitos humanos, longe de acreditar que a violência resolvesse alguma coisa, converteu-se ao credo de que a Lei era maior que os homens: se houvesse desobediência contra a ordem do mundo injusto, que fossem punidos os pobres que almejassem destruir as estruturas – pois com suor e o trabalho de seus pais e de si mesmo, com seus estudos intensos e seus cursos de línguas, ele era senhor de seus intentos: a viagem à Veneza, os filhos fofinhos à leite com pera e as férias no Caribe, embora sonhos antigos, ainda deveriam ser possíveis.
Enfim, a quinta e última ilusão aconteceu diante do seu carro. Em achar que o moço negro dos olhos vermelhos e de mãos trêmulas, moço do qual não era responsável, fosse apenas caçoar quando pediu-lhe a carteira: “ah meu amigo! Eu trabalho, não sou vagabundo como você”, disse com escárnio. O moço dos olhos vermelhos não poderia nada – ele ainda sabia boxe – e, lembrando-se disso, foi desferindo golpes no esquelético humano. “Violência não, mas nesse caso é necessário”, se desculpava em pensamento. Mas o moço negro dos olhos vermelhos, que nem mais pensava, tirou do bolso uma faca – pegou a carteira e rasgou-lhe o pescoço. “Filho da puta”, foram suas últimas quase-palavras.
¹ Em homenagem ao texto "Provocações", de Luis Fernando Veríssimo.
(A sexta ilusão foi pensar: o texto é grande, quero é espreguiçar)
A primeira ilusão ele não precisou criar, foi-lhe dada pela natureza sagrada: pele branca, propriedade privada, pais carinhosos e uma ursinho de pelúcia chamado Teddy. Mas todos que ele conhecia nasciam assim, exceto o Thor, filho do Eike, que já feto tinha mais dinheiro que um país da África. A segunda ilusão seus pais lhe incutiram: a ausência se compra com brinquedos, com aulas particulares e cursos de línguas – “o mundo é injusto, meu filho” e, se Deus ou a família lhe deram a dádiva de nascer privilegiado, era preciso se armar para impedir de perder o que por sorte foi conquistado. Aprendeu aulas de boxe para se defender dos trombadinhas, nunca andou de ônibus para evitar a inveja e no início, bem no início, antes de ser hobbesianamente científico, frequentava a igreja, porque tinha que agradecer a Deus, fazer amigos e se livrar do mal-olhado. A terceira ilusão foi uma ilusão diferente: Luísa na festa do colégio, com seu sorriso lindo e seus olhos de veludo. Luísa também branca, bonita e pudica, porém mais inteligente. E ele que, com seus olhos verdes, olhou para a menina, contou piadas, inventou memes, tocou-lhe a pele, apaixonou-se por estar com gente como ele. Compreensivo, sonhava em voz alta com os dedos enrolados nos cabelos da moça: “a gente vai ter cinco carros, três casas e dois filhos fofos; moraremos em Veneza por um tempo e, quando for gerente da empresa do meu pai, nem precisarei trabalhar; viveremos de imóveis e de juros, então a gente vai, casa e viaja pelo mundo!”. Compreensivo, foi o primeiro a perceber pelos amigos que a traição é inevitável e, em um mundo injusto, foi durante o Carnaval que carne falou mais alto: se o amor e a queda eram destino, que ele fosse o primeiro a trair sem desatino e ser completamente dono de si mesmo. Por infelicidade, Luísa soube – era seu grande defeito, a inteligência – e não adiantou pedir clemência: foi-se o fim da terceira ilusão. A quarta ilusão, essa sim, ele precisou criar, depois de ser consolado pelo psicólogo da família: “não somos responsáveis pelos outros, a felicidade depende de cada um de nós; a vida é feita de oportunidades em que cada um deve correr atrás: somos capazes de chegar no topo; vencer não implica a derrota do outro”. E longe de ser contra os direitos humanos, longe de acreditar que a violência resolvesse alguma coisa, converteu-se ao credo de que a Lei era maior que os homens: se houvesse desobediência contra a ordem do mundo injusto, que fossem punidos os pobres que almejassem destruir as estruturas – pois com suor e o trabalho de seus pais e de si mesmo, com seus estudos intensos e seus cursos de línguas, ele era senhor de seus intentos: a viagem à Veneza, os filhos fofinhos à leite com pera e as férias no Caribe, embora sonhos antigos, ainda deveriam ser possíveis.
Enfim, a quinta e última ilusão aconteceu diante do seu carro. Em achar que o moço negro dos olhos vermelhos e de mãos trêmulas, moço do qual não era responsável, fosse apenas caçoar quando pediu-lhe a carteira: “ah meu amigo! Eu trabalho, não sou vagabundo como você”, disse com escárnio. O moço dos olhos vermelhos não poderia nada – ele ainda sabia boxe – e, lembrando-se disso, foi desferindo golpes no esquelético humano. “Violência não, mas nesse caso é necessário”, se desculpava em pensamento. Mas o moço negro dos olhos vermelhos, que nem mais pensava, tirou do bolso uma faca – pegou a carteira e rasgou-lhe o pescoço. “Filho da puta”, foram suas últimas quase-palavras.
¹ Em homenagem ao texto "Provocações", de Luis Fernando Veríssimo.
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